Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

Pensar antes de publicar

Purgatório

 

Conhecem o "teorema do macaco infinito"? A ideia pertence a T.H. Huxley, que no século XIX afirmava que o macaco seria capaz de escrever uma peça de Shakespeare. Bastava, para tal, que dispuséssemos de macacos infinitos aos quais pudéssemos confiar máquinas de escrever infinitas. Um dia eles acabariam por medrar qualquer coisa de sublime.

Andrew Keen regressa ao teorema de Huxley em livro que deu polémica nos EUA e foi agora editado entre nós pela Guerra & Paz. Intitula-se "O Culto do Amadorismo". O título, como se costuma dizer, é todo um programa: entregue à multidão ignara - à geração YouTube, à geração Blogspot, à geração Wikipédia; no fundo, aos "macacos infinitos" -, a Internet está a arrasar com o mérito intelectual e artístico; a promover a ignorância e a boçalidade em larga escala; e a cultivar um narcisismo repulsivo em que milhões de alienados usam a rede para exporem os seus delírios.

O problema, no fundo, está na ausência de filtro, capaz de separar a qualidade da mediocridade. Num jornal clássico, existe um editor; na televisão, existe um programador; nos meios de comunicação, existem profissionais que julgam e seleccionam. A Internet é uma selva epistemológica e moral que, acredita Keen, só será espaço frequentável quando os mecanismos de julgamento e selecção tradicionais forem exercidos por profissionais cibernéticos.

Entendo o argumento de Keen. Mas é difícil concordar com o tom alarmista do autor. A Internet é um caos? Sem dúvida. Mas por cada vídeo idiota no YouTube, existem preciosidades musicais, históricas ou até filosóficas que seriam impensáveis há uma década. A melhor forma de enfrentar o "culto do amador" está em procurar, nas famílias ou nos amigos, nos livros ou nas escolas, o profissional em nós. Porque somos nós o verdadeiro "filtro" cibernético; os editores pessoais da informação que procuramos e recusamos; os programadores privados das imagens que nos inspiram ou repugnam.

A Internet mata a cultura tradicional? Pelo contrário: a Internet exige-a como nunca.


João Pereira Coutinho, in Revista Única, Expresso 28/Junho/2010

publicado por rtiatpovoacao às 01:13
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Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

A Lição do Chile

Um a um, vou vendo sair os mineiros das profundezas do Atacama: duas madrugadas e grande parte de um dia de televisão sempre ligada, fascinado com essa extraordinária oportunidade de seguir em directo, a milhares de quilómetros, a extracção, corpo a corpo, de 33 condenados à morte de encontro à superfície, à luz e à vida. O mundo inteiro esteve, em diferentes fusos horários, preso desta transmissão televisiva planetária, que é daquelas que ficará para sempre na nossa memória, como as da chegada à lua ou do início da Guerra do Iraque, em directo. A transmissão foi preparada ao pormenor e teve imagens inesquecíveis, como a da agulha progredindo num mostrador, da esquerda para a direita, à medida que a Fénix ia fazendo cada uma das suas ascensões ao longo dos 700 metros de túnel. Ou as fantásticas imagens recolhidas no interior do próprio abrigo, de onde a Fénix partia, desaparecendo no buraco perfurado na rocha para uma viagem que, de facto, tinha toda a carga simbólica e quase física de um parto.

 

O Chile deu uma lição ao mundo e soube aproveitá-la, com planeamento e sabedoria. Durante 24 horas, milhões de pessoas, da China à Patagónia, tornaram-se fisicamente familiares daquele quarteto que, mais ainda do que os mineiros, ocupou a boca de cena o tempo todo: o Presidente Sebastián Piñera e a sua primeira dama, o cinematográfico ministro das Minas, uma espécie de António Mendonça austral, e a já-não-muito-jovem loira das relações públicas, encarregada dos beijinhos aos mineiros e de os levar até ao hospital de campanha. Piñera aproveitou cada minuto de transmissão para efeitos de propaganda interna e externa. Ignorou ostensivamente o contributo da NASA para a construção da Fénix e não só, o papel determinante do americano chamado à pressa do Afeganistão para manobrar a perfuradora que chegou ao abrigo e que, trabalho feito, desapareceu discretamente para longe das luzes da ribalta. "Tudo foi feito no Chile, é tudo obra dos chilenos", proclamou o Presidente. Não foi verdade, mas, como propaganda, funcionou e de que maneira!

 

Nada, porém, teria funcionado não fosse a extraordinária lição dada pelos mineiros, eles próprios. Dezassete dias sem comunicação com o exterior, sem poder dizer que estavam vivos, sem saber se os procuravam ainda e racionando comida que dava apenas para dois dias. Um líder assumido desde o início, um chefe de turno que, não só não fugiu às suas responsabilidades, como se impôs para assumi-las. E uma capacidade de resistência, uma vontade e determinação exemplarmente patentes no texto da mensagem enviada para cima, ao fim dos dezassete dias, agrafado à sonda que, enfim, os descobriu: "estamos todos bem no refúgio, os 33". Repare-se: nenhum apelo desesperado ('salvem-nos'), nenhuma queixa inútil ("não temos comida, as condições são terríveis"), nada. Apenas o que interessava saber cá em cima: 1) estamos bem; 2) estamos no refúgio; 3) somos 33. A partir daí, esperaram, confiaram, prepararam-se para a hora do resgate e fizeram questão de sair barbeados, limpos, calmos, dignos: nada de sair como mártires, sujos, miseráveis, a apelar ao sentimento e à desgraça. Essa foi a grande lição: grandes momentos exigem grandes homens.

 

Há duas semanas, assisti também a outro espectáculo televisivo de reclusão. Só que este não era de libertação de sequestrados, antes de sequestro voluntário: umas vinte figurinhas, metade meninas que não escondiam o pouco que eram e o muito ao que iam, e outra metade constituída por rapazinhos que se imaginavam interessantes e inteligentes, mergulhavam voluntariamente na reclusão de uma coisa chamada "Casa dos Segredos", em exibição na TVI. Não é apenas mais um lastimável programa de televisão, é pior do que isso. É, não sei como dizer, o retrato da falência moral de uma parte do país e da sociedade. Eu sei que não representam mais do que uma franja de uma juventude absolutamente descartável, sem valores nem objectivos que não sejam trepar na vida rapidamente e de qualquer maneira ("estou disposta a tudo!", garantia uma concorrente, perante o entusiasmo da Júlia Pinheiro). Mas imediatamente se transformou no programa mais visto da nossa televisão e talvez isso queira dizer alguma coisa. Não será por isso que o Chile vai crescer este ano 6,5%, enquanto que nós vamos entrar em recessão. Mas não pude deixar de meditar na distância que vai entre os soterrados do Atacama e os auto-reclusos de Queluz de Baixo. O Chile mostrou-nos a lição de dignidade, coragem e vontade de um grupo de mineiros lutando pela vida, enquanto cá em cima muitos outros lutavam pela vida deles. A TVI mostra-nos o espectáculo degradante da prostituição moral e da indigência mental feitas happenning para um milhão e meio de voyeurs. Dá que pensar.

 

Miguel Sousa Tavares, in Expresso - 21 de Outubro 2010

publicado por rtiatpovoacao às 02:06
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