Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

A Lição do Chile

Um a um, vou vendo sair os mineiros das profundezas do Atacama: duas madrugadas e grande parte de um dia de televisão sempre ligada, fascinado com essa extraordinária oportunidade de seguir em directo, a milhares de quilómetros, a extracção, corpo a corpo, de 33 condenados à morte de encontro à superfície, à luz e à vida. O mundo inteiro esteve, em diferentes fusos horários, preso desta transmissão televisiva planetária, que é daquelas que ficará para sempre na nossa memória, como as da chegada à lua ou do início da Guerra do Iraque, em directo. A transmissão foi preparada ao pormenor e teve imagens inesquecíveis, como a da agulha progredindo num mostrador, da esquerda para a direita, à medida que a Fénix ia fazendo cada uma das suas ascensões ao longo dos 700 metros de túnel. Ou as fantásticas imagens recolhidas no interior do próprio abrigo, de onde a Fénix partia, desaparecendo no buraco perfurado na rocha para uma viagem que, de facto, tinha toda a carga simbólica e quase física de um parto.

 

O Chile deu uma lição ao mundo e soube aproveitá-la, com planeamento e sabedoria. Durante 24 horas, milhões de pessoas, da China à Patagónia, tornaram-se fisicamente familiares daquele quarteto que, mais ainda do que os mineiros, ocupou a boca de cena o tempo todo: o Presidente Sebastián Piñera e a sua primeira dama, o cinematográfico ministro das Minas, uma espécie de António Mendonça austral, e a já-não-muito-jovem loira das relações públicas, encarregada dos beijinhos aos mineiros e de os levar até ao hospital de campanha. Piñera aproveitou cada minuto de transmissão para efeitos de propaganda interna e externa. Ignorou ostensivamente o contributo da NASA para a construção da Fénix e não só, o papel determinante do americano chamado à pressa do Afeganistão para manobrar a perfuradora que chegou ao abrigo e que, trabalho feito, desapareceu discretamente para longe das luzes da ribalta. "Tudo foi feito no Chile, é tudo obra dos chilenos", proclamou o Presidente. Não foi verdade, mas, como propaganda, funcionou e de que maneira!

 

Nada, porém, teria funcionado não fosse a extraordinária lição dada pelos mineiros, eles próprios. Dezassete dias sem comunicação com o exterior, sem poder dizer que estavam vivos, sem saber se os procuravam ainda e racionando comida que dava apenas para dois dias. Um líder assumido desde o início, um chefe de turno que, não só não fugiu às suas responsabilidades, como se impôs para assumi-las. E uma capacidade de resistência, uma vontade e determinação exemplarmente patentes no texto da mensagem enviada para cima, ao fim dos dezassete dias, agrafado à sonda que, enfim, os descobriu: "estamos todos bem no refúgio, os 33". Repare-se: nenhum apelo desesperado ('salvem-nos'), nenhuma queixa inútil ("não temos comida, as condições são terríveis"), nada. Apenas o que interessava saber cá em cima: 1) estamos bem; 2) estamos no refúgio; 3) somos 33. A partir daí, esperaram, confiaram, prepararam-se para a hora do resgate e fizeram questão de sair barbeados, limpos, calmos, dignos: nada de sair como mártires, sujos, miseráveis, a apelar ao sentimento e à desgraça. Essa foi a grande lição: grandes momentos exigem grandes homens.

 

Há duas semanas, assisti também a outro espectáculo televisivo de reclusão. Só que este não era de libertação de sequestrados, antes de sequestro voluntário: umas vinte figurinhas, metade meninas que não escondiam o pouco que eram e o muito ao que iam, e outra metade constituída por rapazinhos que se imaginavam interessantes e inteligentes, mergulhavam voluntariamente na reclusão de uma coisa chamada "Casa dos Segredos", em exibição na TVI. Não é apenas mais um lastimável programa de televisão, é pior do que isso. É, não sei como dizer, o retrato da falência moral de uma parte do país e da sociedade. Eu sei que não representam mais do que uma franja de uma juventude absolutamente descartável, sem valores nem objectivos que não sejam trepar na vida rapidamente e de qualquer maneira ("estou disposta a tudo!", garantia uma concorrente, perante o entusiasmo da Júlia Pinheiro). Mas imediatamente se transformou no programa mais visto da nossa televisão e talvez isso queira dizer alguma coisa. Não será por isso que o Chile vai crescer este ano 6,5%, enquanto que nós vamos entrar em recessão. Mas não pude deixar de meditar na distância que vai entre os soterrados do Atacama e os auto-reclusos de Queluz de Baixo. O Chile mostrou-nos a lição de dignidade, coragem e vontade de um grupo de mineiros lutando pela vida, enquanto cá em cima muitos outros lutavam pela vida deles. A TVI mostra-nos o espectáculo degradante da prostituição moral e da indigência mental feitas happenning para um milhão e meio de voyeurs. Dá que pensar.

 

Miguel Sousa Tavares, in Expresso - 21 de Outubro 2010

publicado por rtiatpovoacao às 02:06
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1 comentário:
De smasm a 2 de Dezembro de 2010 às 14:30
Considero que no caso do Chile os seus governantes viram naquela situação a oportunidade de tirar proveito à custa da desgraça dos mineiros e estes, apesar de tudo o que passaram, conseguiram mesmo assim dar uma lição de vida a todos. Quanto à «Casa dos Segredos» programa que abomino tal qual abominava o »Big Brother« e todos os semelhantes acho que está na hora dos portugueses acordarem para a vida. De fazerem algo de útil pela sociedade e aprenderem com a lição do Chile: trabalho, dedicação, dignidade e respeito por todos. Só assim poderemos sair desta crise com a cabeça erguida.


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