Domingo, 1 de Maio de 2011

Dia da Mãe

 

Não me foi fácil escolher um poema para assinalar este dia no nosso blog. Fiquei na dúvida entre O Menino de sua Mãe, de Fernando Pessoa, e este que vos deixo. Escolhi-o por duas razões. A de menor importância: é de um poeta próximo da minha terra. Nasceu na Póvoa da Atalaia, Fundão, muito próximo da terra da Professora Teresa Sanches, em plena Serra da Gardunha onde, por esta altura, começam a brotar as mais doces cerejas do país.

A mais importante: por vezes, quando há desentendimentos ou incompreensões, nada melhor do que falar usando citações ou as palavras de outros. Este poema é a prova viva disso mesmo. Recordo-me, como se fosse hoje, da minha mãe a ler-me e a explicar-me o sentido de cada verso de Eugénio de Andrade, quando tinha doze ou treze anos.

Mais tarde, como todos nós, cresci e quis voar. Quando as asas da minha inquieta adolescência me impeliam para outras paragens, menos serenas que o doce lar materno, ecoava amíude nos meus ouvidos um estridente "NÃO!" E eu, tentando levar água ao meu moinho, contrapunha com sábias palavras de Eugénio:

 

Mas tu esqueceste muita coisa! 
Esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe!


... e no rosto da minha mãe ficava um sorriso que tentava dissimular com um "Vai falar com o teu pai...". Enquanto me afastava da cozinha, dizia para os meus botões: "Metade da tarefa está feita, agora só me resta o mais difícil!"

Bem-haja, minha mãe, por tudo e, já agora, pela poesia, pela música e pelos livros que me deste a ler. Sem isso, certamente, não seria a pessoa que sou.  

 

 

Pedro Chorão 

 

 

 

 

 

 

No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe!

 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos!

 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais!

 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz.

 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura!

 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

 

Mas tu esqueceste muita coisa! 
Esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe!

 

Olha - queres ouvir-me? -, 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos;

 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura;

 

ainda oiço a tua voz: 
"Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal..."

 

Mas - tu sabes! - a noite é enorme 
e todo o meu corpo cresceu...

 

Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber.

 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas...

 

publicado por rtiatpovoacao às 02:23
link do post | comentar | favorito
|
17 comentários:
De MB_EstudanTurismo T.I.A.T. a 2 de Maio de 2011 às 23:51
Sem dúvida um poema que a todos nos diz respeito... Todos nós que devemos a vida às nossas queridas mães. Afinal, o que seria de nós sem elas não é?
Também gostava de partilhar aqui um poema de Leandro Cordeiro, poema este que tem muito a ver com a mina vida, com o que fui e com o que sou hoje. Sem dúvida que o mundo era muito mais belo enquanto vivia-mos a nossa inocência mas... por força da natureza, as nossas pernas cresceram, todo o nosso corpo cresceu, até o coração cresceu... e infelizmente também crescem os problemas, o desalento, as desilusões e as amarguras de uma vida que pensávamos ser uma mar de rosas mas... é a vida! e há que seguir com ela... valorizando a cima de tudo a fonte da nossa existência: as nossas mães.
Aqui fica o poema que dedico a minha querida mãe.


De rtiatpovoacao a 3 de Maio de 2011 às 00:25
Eugénio de Andrade foi e continua a ser um grande poeta através dos seus poemas.
O poema à mãe é um belo poema, uma linda dedicatória às mães merecedores do mesmo.
O Poeta declara de forma sábia e harmoniosa, a complicada época de mudança e crescimento de um filho (a).
Para uma mãe os filhos mesmo crescidos, são sempre os seus bebés amorosos :)


De rtiatsandra a 3 de Maio de 2011 às 11:00
é um poema muito bonito para dedicar a todas as mães do mundo..." A palavra MÃE é uma pequena palavra mas é uma das maiores que o mundo tem..." todas as palavras do mundo são poucas para valorizar a pessoa que nos deu a vida... MÃE é aquela pessoa que por vezes achamos chatas que está sempre a dizer o que é certo ou errado é a pessoa que mais se importa connosco... ate pode ser a pior pessoa do mundo mas será sempre a nossa Mãe...posso ainda dizer que que a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi ter sido mãe é a melhor coisa do mundo...


De pedro_13 a 3 de Maio de 2011 às 11:53
Gostei muito do poema , como sabem perdi a minha mãe no dia 21 de março de 2011, sinto muitas saudades dela e no passado dia 1 de maio acordei com uma certeza enorme que minha mãe estava cozinha a preparar o almoço como fazia todos oo domigos de manha, mas mais uma vez nao passou de um sonho, porque a dura realidade, é que a minha mae ja faleceu e eu tenho de lidar com isso ate ao resto da vida.


De ascidia a 3 de Maio de 2011 às 12:03
eu acho o poema lindo, é uma linda dedicatória às mães e é dar graças a Deus ter ainda a minha ao meu lado.
ás vezes ponho-me a pensar como seria ficar sem a minha, e realmente sinto uma tristeza, mas agradeço pela minha mãe ainda estar perto de mim. espero aproveitar ao máximo a companhia da minha mãe estando com ela todos os dias e quando posso. deveríamos dizer o que sentimos às mães todos os dias, do quanto são importantes para nós, e só quando as perdemos sentimos a falta imensa que nos faz.


De rtiatvitor a 3 de Maio de 2011 às 12:07
Fiquei sensibilizado com o poema, o autor fala profundamente da sua progenitora, faz com que gostamos até da mãe dele. Mãe só há uma é a minha e mais nenhuma.


De lmvc a 3 de Maio de 2011 às 12:09
Poema lindo para um dia que deveria ser todos os dias...quem já não tem mãe desejaria ter e quem a tem por vezes não valoriza! Eu dou valor mesmo já sem a ter e tenho muito para valorizar...as minhas filhas!


De lipe_galante a 3 de Maio de 2011 às 12:11
Eu não sou muito amante de poemas, mas esse emocionou-me porque fala da super mulher que á no mundo a nossa mae


De anapaula29 a 3 de Maio de 2011 às 12:15
Achei o poema lindo, nunca tenha lido um poema da Mãe e achei muito interessante. O autor fala da Mãe como se ele já a tivesse perdido e só depois de perdermos uma Mãe é que damos o seu devido valor. É uma boa forma de curar um pouco a dor que sentimos.


De rtiatmarie a 3 de Maio de 2011 às 12:23
Esse poema me fázrelembrar que as nossas mães são a melhor coisa do mundo sem ela naõ existiamos. Pelo que o autor fala ele parece já ter perdido a sua mãe mas é uma maneira que ele tem de falar nela e nunca a esquecer. Acho que as nossas mãe deveriam ser lembradas porque o seu coração é branco como uma rosa que fica guardado para sempre na nossa cabeça.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. Feira Povoacense de 9 a 1...

. CLC 7 – DR3: Ciência e Co...

. Como se faz um audiolivro...

. "Biblioteca" de audiolivr...

. CLC 7 - DR2: Tutorial do ...

. "Fundação Pingo Doce de P...

. Mecenato: uma reflexão, n...

. Actividade Extra -.curric...

. A Tempestade de William ...

. Novos livros

.arquivos

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds